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02/06/2026
EUA atacam Pix para favorecer empresas de pagamentos americanas; relatório pode subsidiar medidas contra Brasil
BRASÍLIA, DF - O escritório do Representante Comercial dos
Estados Unidos (USTR) atacou o Pix brasileiro, acusando a tecnologia nacional de
prejudicar “injustamente” as empresas estadunidenses que prestam serviços de
pagamento eletrônico. Entre as empresas prejudicadas estariam a MasterCard,
Visa e o Whatsapp Pay. “Os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao
tratamento preferencial concedido ao Pix são injustos e discriminatórios. É
injusto exigir que os concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como
disponibilidade, visibilidade e limites de tarifas, e o Brasil discrimina os
fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA ao conceder essas
vantagens apenas à empresa líder nacional [o Pix]”, diz o documento. Segundo a recomendação da conselheira jurídica geral do
USTR, Jennifer Thornton, o Brasil favorece, por meio de políticas, sua “campeã
nacional, o Pix”, criado pelo Banco Central (BC). “O papel duplo do Banco Central do Brasil como regulador e
proprietário/operador do Pix cria um conflito de interesses, na ausência de
salvaguardas processuais adequadas. O banco agiu para prejudicar os provedores
de serviços de pagamento eletrônico dos EUA e dar preferência ao Pix”,
acrescenta o documento. O relatório, publicado na noite dessa segunda-feira (1º), é
resultado de uma investigação iniciada há um ano no governo de Donald Trump
contra supostas “práticas desleais” do Brasil no comércio com os EUA. O
relatório sugere, entre outras ações, a taxação de 25% sobre parte dos produtos
brasileiros. Agora, o governo brasileiro e empresas prejudicadas poderão
se manifestar sobre o relatório final da USTR até o dia 15 de julho, quando os
EUA poderão passar a adotar “medidas corretivas” contra o Brasil. O professor do Instituto de Economia da Unicamp Pedro Paulo
Zahluth Bastos avalia que a ação do governo Trump busca disputar o mercado de
pagamentos eletrônicos do Brasil e usar o caso como “efeito demonstração” para
que outros países não busquem criar mecanismos que prejudiquem empresas dos
EUA. “O problema é que o PIX já é um sistema soberano, público e
gratuito, que oferece uma alternativa a essas redes privadas, que geram muitos
lucros, que são controlados pelos EUA”, explicou o especialista. Zahluth rejeitou o argumento dos EUA de que haja uma
discriminação contra as empresas do país norte-americano. “O PIX mostrou que uma infraestrutura pública pode deslocar
o modelo privado. que extrai tarifas. E esse modelo está se espalhando, como na
Índia. O interesse dos EUA é essa renda de intermediação que os comerciantes
pagam entre 2% a 5% na transação dos cartões de crédito”, completou. Ele lembra que o Pix tem movimentado mais recursos que
cartões dos EUA como Visa e Mastercad. “O Pix não está impedindo a operação dos cartões. Ele
compete, claro, oferecendo um bem público, gratuito e que funciona. Não existe
nenhuma proibição de que um bem público não possa ser oferecido por um Estado
soberano”, disse o professor. Pix como alvo O relatório da USTR cita que o Banco Central exige o uso do
Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas, além de que o
mecanismo de pagamento gratuito seja exibido nos sites e aplicativos dos bancos
e empresas financeiras com destaque semelhante a qualquer outro tipo de
transferência. “Além disso, o Banco Central incentiva o uso do Pix em
detrimento de outros serviços, exigindo que as instituições participantes
(incluindo as instituições que ela exige para participar do mecanismo) ofereçam
o Pix gratuitamente a indivíduos”, afirma a investigação dos EUA. Para a conselheira Jennifer Thornton, o Pix representa um
ônus ou uma restrição ao comércio dos EUA, “impondo custos aos provedores de
serviços americanos e forçando-os a promover sua concorrente brasileira sem
qualquer compensação”. Segundo o professor da Unicamp Pedro Paulo Zahluth Bastos, a
ação dos EUA contra o Pix busca assegurar os lucros dos monopólios das empresas
estadunidenses, formando parte de uma disputa distributiva pela renda dos
brasileiros. “A sociedade brasileira está querendo evitar que o capital
financeiro estrangeiro absorva rendas monopólicas e, ainda por cima, usando o
Estado para impor isso contra outro Estado que é soberano. É mais uma expressão
do imperialismo americano que o Trump está implementando”, disse o economista. Um ano de investigação A ação contra o Pix brasileiro começou nos Estados Unidos
(EUA) em 15 de julho de 2025, quando o governo Donald Trump anunciou a abertura
de investigação sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil. As críticas ao sistema de pagamento brasileiro podem ser
explicadas pela concorrência do Pix com o Whatsapp Pay e bandeiras de cartão de
crédito norte-americanas (como Visa e MasterCard), e por ter se tornado uma
alternativa ao dólar em algumas transações internacionais. A agência de notícias dos EUA Bloomberg, especializada em
economia e finanças, tem divulgado que as bandeiras de cartões de crédito como
Visa e MasterCard, além das big techs, grandes empresas de tecnologia, tem
pressionado o governo de Donald Trump para agir contra o Pix brasileiro.
Lucas Pordeus León/Graça Adjuto, com foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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